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Congresso Internacional - International Congress
   
 
     
 

 
 


Padre Jesuíta, Professor Universitário, Classicista, Filósofo, Crítico Literário e Pedagogo


* José Eduardo Franco
** Luís Machado de Abreu


Nasceu no seio de uma família muito humilde da Beira Baixa, tendo por pais (assalariados rurais), José Agostinho Antunes e Maria de Jesus. Em Outubro de 1931 ingressou no Seminário Menor da Companhia de Jesus sediado em Guimarães, onde começou a revelar grandes dotes e aplicação ao estudo.

Com 18 anos de idade, no dia 7 de Setembro de 1936, deu entrada no Noviciado da Companhia de Jesus em Alpendurada (Marco de Canavezes), onde acabaria por fazer, dois anos mais tarde, a sua primeira profissão religiosa. A seguir completou os estudos humanísticos, tendo-se dedicado, de modo especial durante três anos, ao aprofundamento da Literatura e da Cultura Gregas e Latinas, nas quais se haveria de notabilizar mais tarde. Feitos os estudos preparatórios para o ingresso no ensino superior, matriculou-se no Instituto Superior Miguel de Carvalho, hoje Faculdade de Filosofia de Braga, onde em 1943 se licenciou em Filosofia, tendo apresentado uma dissertação sobre o Panorama da filosofia existencial de Kierkegaard a Heidegger.

Tendo terminado com distinção o curso de Filosofia e a inclinação revelada para os estudos clássicos, foi chamado durante 3 anos a ensinar Língua e Cultura Latinas e Gregas aos jovens estudantes da sua Ordem Religiosa na Escola Apostólica de Guimarães. Esta constituiu a sua primeira experiência docente. Frequentou posteriormente, de 1946 a 1950, a Faculdade de Teologia de Granada (Espanha), onde obteve a licenciatura em Teologia, completando, por fim, a sua formação religiosa em Namur (Bélgica). Foi ordenado sacerdote ainda antes de concluir a Teologia, como era hábito na Companhia de Jesus. No ano lectivo de 1951-52, começou a ensinar Língua e Cultura Grega e Latina no Curso Superior de Letras da Companhia de Jesus. Em Setembro de 1955, foi destacado para a Casa de Escritores dos Jesuítas, sedeada em Lisboa, destinado a exercer funções na redacção da Revista Brotéria, na qual começara já a colaborar desde 1940. Dedicou-se, de sobremodo, a temas culturais, pedagógicos e filosóficos, assim como à crítica literária. Em Janeiro de 1965, assume a direcção da Brotéria, cargo que manteria até 1982, com uma breve interrupção entre Julho de 1972 a Julho de 1975.

Entretanto, no ano 1957 tinha já sido convidado pelo professor Vitorino Nemésio, então director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para assumir a leccionação de várias cadeiras dos Cursos de Letras. Nesta instituição universitária começou por ensinar História da Cultura Clássica e História da Civilização Romana. Mais tarde, regeu também as cadeiras de Filosofia Antiga e Ontologia, além de ter orientado diversos seminários.

O lugar da Filosofia, no conjunto dos escritos de Manuel Antunes, só episodicamente foi preenchido com trabalhos de elaboração filosófica em contexto académico. O seu percurso docente, votado quase por inteiro às matérias da cultura grega e romana, não lhe proporcionou o enquadramento propício ao aprofundamento especializado das grandes interrogações metafísicas e ao aturado diálogo com os monumentos do pensamento filosófico que, no entanto, frequentou com exemplar assiduidade. E nele havia mesmo contida reserva por nunca lhe haver sido facultada a possibilidade de levar a termo o trabalho de investigação que o conduzisse ao doutoramento em filosofia. Tinha-o iniciado e devia dar continuidade às temáticas de filosofia existencial abordadas aquando da licenciatura.

Mas se o seu pensar filosófico não se encontra em tratados nem em ensaios da especialidade ou na exegese de textos de filósofos consagrados, não deixa por isso de existir e de permear os muitíssimos escritos em que se ocupa de crítica literária, cultura clássica, educação, experiência religiosa, reflexão política e outros. Exercita assim uma atitude crítica e pensante sobre as manifestações culturais em que se objectiva a sua perspicaz filosofia da cultura. Nunca chegou a dar-lhe elaboração sistemática, mas dela se ocupa, designadamente, a propósito dos “conceitos fundamentais” de história, cultura e civilização, mito, logos, mística, clássico, teoria dos conjuntos, conceitos com que abrem as lições de História da Cultura Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa.

Atento às contribuições das ciências humanas e sociais, nelas assenta as incursões hermenêuticas com que atravessa e tenta dilucidar os meandros e complexidades do ser e agir humanos. Lê-se, nos seus textos, a inscrição de uma antropologia filosófica, inquieta e confiante, ciente dos extremos e rupturas que dilaceram e, não obstante, apostada na conciliação das diferenças e na dialéctica dos contrários. É uma dedicação ao conhecimento do homem que se destina a torná-lo cada vez mais humano e que, ao mesmo tempo, se cumpre como uma etapa do longo caminho que leva à completa epifania do ser.

A antropologia de Manuel Antunes insere-se num projecto maior, o de uma ontologia que persegue o ser enquanto nele se revela verdade, bem, beleza e unidade. Por esta via, a meditação sobre a condição humana em permanente crise de responsabilidade e esperança, que lhe percorre o discurso ensaístico é, afinal, o modo muito peculiar de ele reflectir ontologicamente sobre o mundo como totalidade e destino.

Foi como mestre na arte de ensinar que Manuel Antunes mais se viria a notabilizar. Como professor, demonstrou uma competência e um saber verdadeiramente invulgares reconhecidos por alunos e condiscípulos. As várias gerações de alunos que formou (calcula-se que cerca de 15 mil tenham passado pelas suas aulas) muito apreciavam neste pedagogo brilhante a sua vastíssima cultura, o seu poder de síntese, a clareza e o vigor da exposição, a sua atitude modesta, acolhedora, afável e comunicativa. Consideravam-no um autêntico pedagogo humanista que primava por uma arguta atitude crítica do passado e do presente e aplicava com sabedoria as lições da história à vida concreta dos homens e das mulheres do seu tempo.

O valor deste sábio jesuíta, que é hoje unanimemente considerado como um dos mais distintos pensadores portugueses do século XX, não deixou de ser reconhecido ainda no decurso do exercício do seu magistério intelectual e universitário. Alcançou o estatuto de bolseiro investigador pelo Instituto de Alta Cultura e da Fundação Gulbenkian; participou em cursos de Verão e congressos internacionais como representante oficial do Estado Português; foi admitido como sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (1967); em 1981, o Conselho Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa aprovou unanimemente a atribuição do título de Doutor Honoris Causa, que lhe foi atribuído pelo Reitor a 15 de Fevereiro de 1981; e a 10 de Junho de 1983 foi agraciado pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes, com as insígnias de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, as quais lhe foram entregues pessoalmente pelo próprio Chefe de Estado na residência da Brotéria devido ao estado de precária saúde do condecorado o ter impedido de se deslocar à cerimónia oficial.


“Repensar Portugal” foi um dos seus textos políticos mais emblemáticos, escrito precisamente no período da transição democrática de 1974/75 marcado por incertezas e receios vários. Nesta reflexão de alto sentido democrático, alerta especialmente para os perigos das “tentações totalitárias”. Este é um dos textos de reflexão que testemunha a intervenção ponderada de Manuel Antunes neste processo complexo através do seu magistério intelectual em que sugere orientações no momento quente de mudanças políticas que se estava a viver. Neste decisivo momento político, este director da Brotéria revelou-se uma figura de consenso e criadora de consensos, papel que lhe é reconhecido tanto na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leccionava, como junto de personalidades políticas que tiveram uma acção relevante na fundação da democracia em Portugal.

Figuras políticas do pós-25 de Abril, como foi o caso do General Ramalho Eanes, muito usufruíram do conselho e das ideias de Manuel Antunes. É-lhe atribuído um papel intelectual importante pela influência positiva que exerceu em favor da transição moderada do regime ditatorial para a construção do regime democrático. Neste quadro, o Pe. Manuel Antunes chegou a ser convidado para desempenhar as funções de Ministro da Educação, convite que acabou por declinar, em grande medida, atendendo ao parecer de alguns dos seus confrades mais prudentes e à sua saúde frágil. Apesar de não ter aceite estas complexas responsabilidades políticas que lhe dariam uma extraordinária mas não menos melindrosa visibilidade, Manuel Antunes, com a discrição que lhe era própria, deixou para a posteridade um legado da maior qualidade intelectual e humana que marcou de forma indelével várias gerações de portugueses que com ele aprenderam, conviveram e dele receberam orientação.

Joaquim Coelho Rosa, antigo assistente de Manuel Antunes na Faculdade de Letras, salienta que dos fecundos anos de docência universitária ficaram, para as várias gerações de alunos seus, “a sabedoria”, “a afabilidade humana” e “o brilho humilde” de um professor cativante; “uma obra-prima de história e filosofia da cultura (...), onde, a respeito de Gregos e Romanos, o leitor e o aluno são reenviados a si mesmos, à sua identidade de herdeiros de uma tradição milenária e multifacetada, aquilatada no verso e reverso das realizações do espírito do tempo (...); a mestria irrepreensível da língua e o uso rigoroso e belo das palavras por alguém que viveu e chamou os seus contemporâneos ao encontro da Palavra” (1989, p. 319).

Entre diversos artigos, opúsculos e obras-síntese publicadas aqui e acolá, nos intervalos da sua asfixiante actividade docente, podemos auscultar uma fecunda e original filosofia pedagógico-educativa e cultural, onde sobressai uma teoria da educação baseada num personalismo humanista cristão. Procurando assentar a labuta do pensamento num sólido humanismo, tentou abrir a cultura aos valores do espírito na esteira de uma síntese interdisciplinar sobre o homem, o mundo, o cosmos e Deus, remando contra a corrente da especialização reducionista.

Segundo a síntese poderosa de M. Ferreira Patrício, Manuel Antunes afirma a necessidade de fazer assentar uma teoria de formação do homem, numa antropagogia, ou seja, numa antropologia - Que podemos esperar? Que devemos fazer? Que podemos saber? Ele entende que só “uma visão global do ser humano, retrospectiva e prospectiva, passada e antecipante, permitirá a organização de um sistema educativo digno desse nome” (1973, p. 43) – , um pouco na linha da filosofia pedagógica portuguesa contemporânea, do pensamento de que são figuras luminares Pascoaes, Leonardo Coimbra e Delfim Santos (cf. Patrício, 1985c). Escreve M. F. Patrício, considerando-se um dos discípulos deste pedagogo, que “toda a obra do Pe. Manuel Antunes é pedagógica. Ou melhor: antropagógica. Com efeito, o homem está no centro das suas preocupações. A vida de Manuel Antunes foi habitada pelo cuidado pelo homem. Ele não quis, no entanto, apenas conhecer e compreender o homem. Quis, com efeito, ajudar o homem a ser homem, a formar-se tão plenamente quanto possível como homem, a viver a sua vida de homem sob o signo do contínuo e exigente movimento do aperfeiçoamento” (1985c, p. 297).

Manuel Antunes, mais do que um humanista era um personalista cristão. Colocava a tónica no entendimento das pessoas “como seres de carne e osso que não estruturas impessoais, seres com direitos e deveres recíprocos que não apenas abstractos”, “seres solidários de um mesmo destino terrestre e ultraterrestre”. A sua reflexão pedagógica insurge-se contra os homens esvaziados de humanidade, contra o «homem-máquina», aquele que não é capaz de liberdade e responsabilidade, contra os «homens-espuma», alucinados e alheios de si próprios. Patrício descortina que “há todo um programa pedagógico transpositivista (...), todo um programa de acção antropagógica no pensamento educativo deste pedagogo.” É neste sentido que ele advoga o “primado das ciências do homem sobre as ciências da natureza”, contra a utopia do “cientísmo míope” que distanciou o homem da sua interioridade, para que possa novamente caminhar no sentido de se conhecer melhor a si mesmo (cf. 1986, 161 e ss.).

Como mestre da história e da vida humana, aliando de forma admirável a teoria e a prática, para Manuel Antunes o ideário de fundo da educação deve ter como meta a entrega do homem a si próprio. A verdadeira educação, aquela que forma integralmente o ser humano, deve ser capaz de conduzir ao pólo oposto da alienação: homem sujeito e não objecto, pessoa em vez de coisa. Deve, portanto, combater o homem serial, que constitui a «multidão solitária», o homem multitudinário.

Em sintonia com a doutrina do magistério eclesiástico, tal como é exposta nas encíclicas Pacem in Terris e Popolorum Progressio e na Constituição Conciliar Gaudium Spes do Concílio Vaticano II, assim como em proximidade dialógica com a filosofia subjacente à Declaração Universal dos Direitos do Homem no tocante à educação e à cultura, Manuel Antunes acentua os traços do personalismo cristão, onde a dignidade da pessoa constitui o leitmotiv de toda a acção educativa e cultural (Patrício, 1985c).

Entende que uma teoria da educação tem de conter, necessariamente, uma teoria do Estado. Rejeitando todas as modalidades do Estado Totalitário argumenta, na sua obra “Repensar Portugal” (1979), que o Estado Democrático, plural, tolerante é o único que é compatível com a liberdade e dignidade da pessoa humana. Na sua óptica, o Estado não deve ser o único, nem sequer o principal docente da Nação, mas deve ser um Estado aberto, que deve garantir a educação numa sociedade aberta. Considera, por isso, não ser possível uma verdadeira revolução política sem esta ter sido antecipada e preparada por um projecto educativo, ou seja, por uma theoria e uma praxis pedagógicas.

Uma das suas obras mais importantes, que condensa as suas reflexões mais significativas sobre a educação, reúne e aprofunda um conjunto de artigos compilados sob o título de Educação e Sociedade (1973), na sequência do debate ocorrido em torno da reforma educativa promovida pelo Ministro Veiga Simão. Aqui repensa a educação no plano dos princípios e dos fins, não deixando de adiantar sugestões práticas. Entende que “no contexto que é nosso, o sistema de educação, que se torna necessário redefinir, deveria girar em torno de dois pólos que mutuamente se atraíssem e influenciassem: a ciência e a sabedoria, os factos e os valores” (1973, pp. 13-14). Na educação pela ciência, defende que é preciso ter em conta, qualquer que seja o ramo, o método e não apenas o conteúdo propriamente dito: “Infelizmente, no ensino liceal entre nós vigente como, por vezes, no ensino superior, o que (...) parece promover-se é a aquisição de dados e de conhecimentos, sem levar em suficiente linha de conta, nem a sua compreensão em profundidade, nem o caminho como a eles se chegou. Menos ainda parece exigir-se a sua integração numa totalidade mais vasta” (1973, p. 14). A ciência, no seu entender, deve ser fomentada com todo o empenho, mas deve essa dedicação ser acompanhada de sabedoria, de sensatez, de valores, de um sistema ético.
Continua a ser cada vez mais espantosa a gritante actualidade e a necessidade deste caminho pedagógico traçado por este filósofo jesuíta para a edificação um saber interdisciplinar tendente à construção de uma sabedoria de vida e para a vida e não um amontoado confuso de conhecimentos.

Antunes foi também um pedagogo “prospectivista”. Nesta linha, entendia que a educação do futuro deveria ter em conta três vectores fundamentais: “Fé na Ciência; confiança na Imaginação; abertura à Transcendência” (Patrício, 1986, p. 164), para que todas as dimensões do homem sejam valorizadas e se torne possível levar a cabo o seu programa ideal de educação: “a educação do homem todo e de todo o homem”, como projecto existencial de toda uma vida e da vida toda, de toda a sociedade e da sociedade toda. Nesta base teórica se funda a sua reflexão sobre a educação permanente. Por seu lado, considera que a educação deve ser enraizada na matriz cultural dos educandos. Daí que ao repensar a educação em Portugal, repense na linha da sua integração valorizante da cultura portuguesa para que “a educação portuguesa seja educação e seja portuguesa” (1986, p. 181).

O Padre Manuel Antunes concebe o processo educativo como intrinsecamente relacional e dialogal baseado no cultivo da relação entre educador e educando e entre este consigo mesmo, de modo a conduzir a um aperfeiçoamento humano, que ele define como a “capacidade educacional do homem” (1973, p. 32). De acordo com o seu pensamento, a teoria da educação deve fundar-se numa teoria da cultura, reivindicando uma ligação íntima entre ambas. Neste sentido, entende por educação “não o simples processo da didáctica escolar, mas, no sentido mais largo, toda a aquisição, transmissão, renovação e criação de ideias, de comportamentos, de formas e de símbolos expressivos”, ou seja, “mais sinteticamente: a educação é a reflexão e o projecto de uma cultura” (1973, p. 11). A sua filosofia educativa discerne a educação como um processo de humanização e de regeneração social, o meio certo para fazer face às crises inevitáveis da sociedade humana: “na crise radical que atravessa o mundo e à qual nenhuma nação e mesmo nenhum indivíduo escapam ou sequer, no limite, podem escapar, a educação constitui um dos básicos elementos salvadores” (1973, p. 35). Isto porque a “noção de educação remete, desde logo, para as concepções últimas do Homem, do Mundo e da Vida, para a questão dos fins e dos meios, para a floresta altamente embrenhada das implicações da natureza na cultura e da cultura na natureza, para o universo, mais delicado e embrenhado ainda, das relações entre indivíduo e sociedade, e, entre estrutura e génese, entre essência e história” (1973, p. 35).

A filosofia e a teologia têm, na classificação e possível resolução desses problemas, uma posição fulcral. Mas, para o mesmo efeito, contribuem necessariamente tanto as ciências da natureza e as ditas exactas como as humanas; na verdade, a totalidade do saber humano, sabiamente orientado, sobre o Homem, o Mundo e a Vida. Para tal, considera o método lexiológico insuficiente e também não é satisfatório o da «circum-navegação» pelas teorias e definições que da educação têm sido dadas e formuladas. A metodologia que se lhe afigura mais apropriada é a de “tentar relacionar certos temas que a educação implicar ou tentar justificar uma definição escolhida entre as várias possíveis” (1973, p. 38). Este pedagogo concebia que nada seria mais perigoso do que orientar a educação por ideias incompletas, assumidas com cariz dogmático e totalizante: “uma educação ou é total ou simplesmente não é. Uma educação ou tem em conta todas as aspirações do homem ou não passa de um logro” (1973, p. 38).

O seu pensamento pedagógico é essencialmente axiológico, isto é, pensa a missão da educação como uma acção promotora e instauradora de valores, pois o valor é entendido como o pólo aglutinador de tudo o que é educativo. A educação é um projecto construído a partir de uma relação interpessoal. A essência dessa relação é, “nos seus termos mais simples uma consciência e uma liberdade” (1973, p. 39).

O autor escreve ainda sobre outras áreas temáticas de vários campos do saber, sempre com olhar arguto e atento, levantando questões e apontando sugestões pertinentes. A sua grande preocupação consiste sempre em integrar criticamente os conceitos e as suas inter-relações pluri-significativas. Os seus diversos artigos publicados na Brotéria apresentam reflexões sistemáticas sobre problemáticas que vão desde a reforma do ensino superior, educação permanente, a ética e o pluralismo político, a filosofia, a teologia até à crítica literária. A sua análise aponta insistentemente para a necessidade de fomentar um espaço de participação alargada e crítica dos vários intervenientes na «empresa» da educação, para o incremento de uma criatividade aberta que promova e eleve o homem e coloque as suas estruturas acessórias ao serviço de uma maior eficácia e proficuidade de resultados. Verifica que o homem contemporâneo tem a consciência cada vez mais radicada de que, hodiernamente, tudo está em questão - princípios e preceitos, formas e conteúdos, estilos e modelos de vida. Logo, os caminhos que se abrem ao homem são, como nunca foram, “impressionantemente numerosos e labirínticos.” Por isso, entende ser uma tarefa “fundamental e urgente, pensar a educação” (1973, p. 33).

Um aspecto curioso e significativo que, por fim, nos cumpre salientar, entre os muitos aspectos notáveis do seu perfil biobibliográfico, foi o facto ter usado 124 pseudónimos para assinar diversos artigos seus na Brotéria. O recurso intensivo à pseudonímia pode ser explicado pela necessidade de fabricar aparência de diversificação autoral quando precisava de escrever vários artigos num mesmo número da revista, quer ainda como estratégia para iludir a censura do Estado Novo que averiguava mensalmente os conteúdos publicados. Dos seus 124 pseudónimos já identificados damos a conhecer os nomes/faces do autor que mais uso fez da pseudonímia na história da cultura portuguesa:

A. M. Oleiro, A. Pinhal da Cruz, A. Vítor Ferreira, Abel Moradal, Adolfo Simões, Alberto Sobreira, Almiro Fortes, Altino Dias de Lima, Álvaro de Sousa Crato, Álvaro Ribeira Clara, Alves Cruz, Alves Vidigal, André Venestal, Ângelo d’Álvaro, António Trízio, Artur Gomes de Leda, Artur Mongueira, Bento de Serpa, C. de Freitas Manso, C. de Lemos, Carlos Amaral, Carlos Clímaco, Carlos Cumeada, Carlos Horta de Sousa, Carlos Mota, Carlos Neto, Carlos Nunes, Carlos Orvalho, Carlos Outeiro Cruz, Daniel Peres, Dário Diniz, Duarte de Campos, Duarte de Figueiredo, Eduardo Santos Cruz, F. Bravo Gomes, F. de Sousa Santos, F. Lucílio, F. Moradal, Fernando de Serpa, Fernando Relvas, Filipe Almor, Filipe Costa, Flávio Dias, Flávio Ribeiro, Flávio Rodrigues, Francisco Outeiro, Franco de Lima, Gabriel Mira Belmar, Gabriel Vagos, Henrique de Freitas, Horácio Alves, Irénio Figueira, Ivo Castel-Velho, Ivo Lares, J. A. Nunes, J. da Costa Amioso, J. Lifar Filipe, J. Mira de Freitas, Jacinto Alves, João Delta de Sousa, Jorge de Castro, José de Oliveira Ascensão, José Gomes Claro, José Pedro Lavrador, L. da Cunha Novo, L. de Bouçô, L. Fratel, L. Lente Rodrigues, L. Pronto de Sousa, L. Sales Filipe, L. Santos Duarte, Leal de Lemos, Leonel Cardigos, Licínio Alves, Lionel Dias Novo, Lucínio Faro, Luís Amioso, Luís Bonfim, Luís Castelo, Luís Claro Luís, Luís d’ Isna, Luís de Freitas, Luís Dias de Bivar, Luís Franco de Sousa, Luís Ladeira, Luís Maxial, Luís Mendes de Aveiro, Luís Mileu, Luís Mira de Lima, Luís Parreira, Luís Peral da Silva, Luís Portel, Luís Rainho, Luís Sirgado Nunes, Luís Sobral Nunes, Luís Sorvel, Luís Vergão, M. Pinhal da Cruz, M. Simas, M. Veiga da Ponte, M. Veiga-Beiriz, Manuel Avelar, Mauro Diniz, Neves de Lima, Nuno Vieira de Pena, Orlando Cruz, Paulo Ermida, Pedro Lages, Pedro Lobo de Góis, Pedro Marçal, Pedro Palhais, Pedro Pereira, R. Dias de Lagos, R. N. dos Santos Lopes, Raul Santos, Rogério de Campos, Santana Claro, Sereno Silva, Sérgio Orvalho, Tiago do Canto e Silva, Vaz Sobral, Vítor Lança de Frias e Vítor Regorige.


Só na Brotéria escreveu 410 artigos: 252 deles foram assinados com estes seus múltiplos pseudónimos e ainda outros 90 textos com o seu nome abreviado: M. Antunes. Além desta vastíssima publicação periódica regular, colaborou noutras revistas académicas e eclesiais, nomeadamente na Revista Portuguesa de Filosofia, na Euphrosyne e na Revista da Faculdade de Letras. Como remate, não podemos esquecer as numerosíssimas entradas (mais de duas centenas e meia) que redigiu para a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura publicada pela editorial Verbo, da qual foi director da secção de Literatura. Os textos assinados por Manuel Antunes nesta Enciclopédia de referência, como na Enciclopédia Logos da mesma casa editora, propõem sínteses profundas para iniciação a diferentes temas que trata com um saber e uma acuidade fora do comum. Na verdade, a vida e obra de Manuel Antunes representam um legado invulgar para a cultura portuguesa, o que de melhor merece ficar registado na história das ideias e das práticas do século XX português.


BIBLIOGRAFIA DE: Ao encontro da palavra, Lisboa, Liv. Morais, 1960; Do espírito e do tempo, Lisboa, Ática, 1960; História da Cultura Clássica, Lisboa, Texto policopiado, 1960-1961; Função da Teologia no mundo de Hoje, Lisboa, Edições Brotéria, 1967; Notas sobre o carácter dramático do Fédon, Separata de Euphrosyne, Vol. 1, Lisboa, 1967; Indicadores de civilização, Lisboa, Verbo, 1972; Grandes derivas da História Contemporânea, Lisboa, Edições Brotéria, 1972; Educação e Sociedade; Lisboa, Sampedro, 1973; Grandes contemporâneos, Lisboa, Verbo, 1973; Repensar Portugal, Lisboa, Multinova, 1979; Ocasionália: Homens e ideias de ontem e de hoje, Lisboa, Multinova, 1980; Os Gregos e o espírito científico, Separata da Ver Ciência, nº 1; O problema da certeza no último Wittgenstein, Braga, Faculdade de Filosofia, 1982; Legómena: Textos de teoria e crítica literária, Org. e selecção de M. Ivone de Ornelas de Andrade, Lisboa, IN-CM, 1987; Teoria da Cultura, Coord., revisão e notas de M. Ivone Ornelas de Andrade, Lisboa, Colibri, 1999.
Obras que prefaciou: Graham Greene, O nó do problema, Lisboa, Ulisseia, 1964; Victor Buescu, Hespéria: Antologia de Cultura Greco-Latina, Lisboa, Livraria Escolar Editora, 1964; Alain Guilhermou, Os Jesuítas, Lisboa, 1977.
BIBLIOGRAFIA SOBRE: António Leite, “Padre Manuel Antunes, S.J. (1918-1985)”, in Brotéria, Vol. 120, 1985a, pp. 243-252; José Eduardo Franco, Brotar Educação. História da Brotéria e do seu Pensamento Pedagógico, Lisboa, Roma Editora, 1999, pp. 359-365; Hermínio Rico, José Eduardo Franco (coords.), Fé, Ciência, Cultura. Brotéria – Cem Anos, Lisboa, Gradiva, 2003, pp. 177-187; Manuel Ferreira Patrício, “Notas sobre o pensamento pedagógico de Manuel Antunes”, in Brotéria, Vol. 121, 1985b, pp. 297-316; Manuel Ferreira Patrício, “A antropologia de Manuel Antunes”, in Brotéria, Vol. 121, 1985c, pp. 540-554; Manuel Ferreira Patrício, “A educação para amanhã na pedagogia de Manuel Antunes”, in Brotéria, Vol. 122, 1986, pp. 163-181; Joaquim Coelho Rosa, “Manuel Antunes”, in Encilopédia Logos, Vol. I, Lisboa-S.Paulo, 1989, cls. 318-320; Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Homenagem a Manuel Antunes, Lisboa, s.n., 1985; J. Vaz de Carvalho, “ Manuel Antunes”, in Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, Vol. I, Roma-Madrid, IHSJ e UPC, 2001, pp. 200-201.

* Historiador doutorado pela pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e estudioso da vida e obra do Padre Manuel Antunes.

** Professor Catedrático da Universidade de Aveiro, especialista em cultura portuguesa, antigo aluno e discípulo do Padre Manuel Antunes.